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Tratamentos

Tratamentos

Tratamento da fibrilação auricular

  1. Quais são os medicamentos anticoagulantes?
  2. Antagonistas de vitamina K
  3. O que é importante quando se utilizam antagonistas da vitamina K?
  4. Quais são as precauções a tomar quando se utilizam antagonistas da vitamina K?
  5. Novos anticoagulantes orais (ou não-vitamina K) (NOAC )
  6. Efeitos secundários dos anticoagulantes orais
  7. Avaliar o risco de hemorragia com medicamentos anticoagulantes
  8. Neutralizar a anticoagulação oral
  9. Dispositivos para encerramento do apêndice auricular esquerdo (LAA)
  10. Controlo do ritmo versus controlo da frequência
  11. Fármacos utilizados para reduzir os episódios de FIBRILHAÇÃO AURICULAR (controlo do ritmo):
  12. Fármacos utilizados para reduzir a FREQUÊNCIA CARDÍACA (controlo da frequência)
  13. Cardioversão elétrica
  14. Ablação com cateter da fibrilhação auricular


O tratamento da fibrilhação auricular pode consistir em fármacos para a própria arritmia (fármacos antiarrítmicos), terapia de intervenção ou fármacos para evitar os  riscos associados à arritmia (por exemplo, prevenção do AVC com o uso de medicamentos anticoagulantes).


O QUE SÃO ANTICOAGULANTES?

Existem tipos diferentes de fármacos anticoagulantes. Os anticoagulantes prescritos em doentes com fibrilhação auricular são: os antagonistas da vitamina K e os novos anticoagulantes orais (também denominados anticoagulantes orais diretos: [DOAC] ou anticoagulantes orais não-vitamina K [NOAC]).

  • Se necessitar de cirurgia, incluindo dentária, informe o cirurgião que está a tomar fármacos anticoagulantes.
  • Se tomar um medicamento anticoagulante, é importante consultar um médico ou farmacêutico sempre que lhe for prescrito um novo medicamento ou quando comprar medicamentos para assegurar que são todos compatíveis. Especialmente com outros fármacos antitrombóticos, como a aspirina..
  • A decisão final sobre que tipo de anticoagulante o doente deve tomar, será tomada pelo médico. Alguns doentes podem não ser bons candidatos para um NOAC, enquanto noutros doentes um dos NOAC pode até proporcionar uma maior redução do risco de AVC com risco comparável ou menor de hemorragia intracraniana (hemorragia no cérebro).

Antagonistas de vitamina K

Varfarina, Acenocumarol, Femprocumona e Fluindiona

Os antagonistas de vitamina K são os anticoagulantes mais antigos e mais utilizados no mundo inteiro. Reduzem a capacidade de o sangue formar coágulos. Estes coágulos sanguíneos são formados por células sanguíneas e outros elementos, formando uma massa sólida no interior do vaso sanguíneo. Para este processo são necessários fatores de coagulação do sangue. Os antagonistas da vitamina K impedem a ativação de alguns destes fatores de coagulação, tornando mais difícil o aparecimento de coágulos. Este processo também se designa por: “diluição do sangue”. Os antagonistas da vitamina K são muito eficazes na redução do risco do AVC.

 

O que é importante quando se utilizam antagonistas da vitamina K?

São necessárias análises regulares ao sangue para avaliar o efeito anticoagulante. Este efeito é medido pelo denominado “INR” (relação normalizada internacional). Consoante este valor a dosagem dos fármacos será adaptada numa base individual. É de extrema importância que faça esta análise ao sangue regularmente para assegurar que a dose que está a utilizar é a correta e que não está em risco. A dosagem utilizada pode diferir de pessoa para pessoa e, individualmente, de período para período.

article1INR testing

Normalmente em pessoas que não tomam anticoagulantes, o sangue coagula com um INR à volta de 1.

Para reduzir o risco de AVC em doentes com FIBRILHAÇÃO AURICULAR, o INR deve variar entre 2 e 3.

Não deve parar de tomar o antagonista da vitamina K sem consultar o seu médico.

 

Quais são as precauções a tomar quando se utilizam antagonistas da vitamina K?

Evitar demasiado álcool.

Os alimentos que contêm grandes quantidades de vitamina K tornam a diluição do sangue menos eficaz. Se a sua dieta for rica em vitamina K, provavelmente precisará de tomar uma dosagem maior do fármaco anticoagulante. A tabela anexada descreve alimentos que são pobres e ricos em vitamina K. Tenha especial cuidado com as ervas medicinais. Consulte sempre o seu médico ou farmacêutico antes de começar a tomar qualquer erva medicinal.

Tabela 1.

Alimentos com BAIXO teor de vitamina K Alimentos com ALTO teor de vitamina K
Alcachofra
Espargos
Banana
Grão
Beterraba
Cenouras
Couve-flor
Aipo
Coentro seco
Milho
Beringela
Feijão verde
Pimento verde
Cogumelos
Cebolas
Pastinaca
Ervilhas
Pepino sem casca
Batata
Abóbora
Rabanete
Couve-rouxa
Curgete
Batata doce
Tomate
Nabos
Abacate
Folha de amarante
Brócolos
Couve-de-bruxelas
Repolho
Óleo de canola
Chuchu
Cebolinho
Couve-galega
Coentro fresco
Endívia
Peixe conservado em óleo
Grão-de-bico
Couve verde
Chá verde
Couve
Kiwi
Lentilhas
Alface
Fígado
Maionese
Folhas de hortelã
Folhas de mostarda
Natto (soja fermentada)
Folhas de erva-moira
Quiabo
Azeite
Salsa
Beldroegas
Algas
Óleo de soja
Soja
Espinafre
Acelga
Chá de fava-tonca
Nabiças
Bebidas de vegetais (V8)
Agrião
Erva de trigo em pó

 

Novos anticoagulantes orais (ou não-vitamina K) (NOAC )

Dabigatrano (Pradaxa ou Pradax)

Rivaroxaban (Xarelto)

Apixaban (Eliquis)

Edoxaban (Lixiana ou Savaysa)

 

 

 

 

 

 

Os NOAC foram introduzidos em 2008-2009 e desde então têm sido utilizados em estudos clínicos com êxito em muitos milhares de doentes com FIBRILHAÇÃO AURICULAR para impedir os AVC. Estes fármacos neutralizam diretamente uma das substâncias de coagulação, com uma prevenção do AVC semelhante ou até melhor quando comparada com um antagonista de vitamina K. Podem ser utilizados sem controlar o INR e não são significativamente influenciados por alimentos, outros fármacos e álcool. O dabigatrano e o apixabano tomam-se duas vezes por dia, e o rivaroxabano e edoxabano podem ser tomados uma vez por dia. É extremamente importante que um NOAC seja tomado todos os dias, conforme prescrito pelo seu médico.

Em doentes, tratados com um NOAC, a função renal tem de ser monitorizada pelo médico. Se a função renal diminuir demasiado, o médico poderá ter de baixar a dosagem ou até parar de tomar o medicamento anticoagulante. 

 

Efeitos secundários de anticoagulantes orais

O efeito secundário mais comum, que ocorre com todos os medicamentos anticoagulantes, é a hemorragia. Na maioria dos casos, as hemorragias não são graves. Podem ocorrer pequenos sangramentos, tal como equimoses ou hemorragia nasal ligeira (epistáxis). Cerca de 1-2% das pessoas que tomam anticoagulantes irão desenvolver hemorragias mais graves que podem exigir uma transfusão de sangue e interrupção do tratamento anticoagulante. O efeito secundário mais grave das hemorragias derivadas dos medicamentos anticoagulantes é a hemorragia no cérebro, conhecida por “hemorragia intracraniana”. Se estiver preocupado com o risco de hemorragia associado à medicação anticoagulante, aborde esta questão com o seu médico. O seu médico irá avaliar o seu risco individual de AVC e irá ponderar o risco de hemorragias com um medicamento anticoagulante.

O seu médico pode calcular o risco de hemorragias antes de lhe propor um medicamento anticoagulante utilizando uma pontuação de risco. Um exemplo de uma pontuação de risco de hemorragia utilizada habitualmente é a pontuação do score “HAS-BLED”. 

 

Avaliar o risco de hemorragia com medicamentos anticoagulantes

Clique aqui para consultar uma calculadora online.

 

Neutralizar a anticoagulação oral

Quando ocorre uma hemorragia grave em doentes tratados com anticoagulantes orais pode ser necessário um antídoto.

O antídoto da antagonista da vitamina K é a própria vitamina K. O efeito da vitamina K tem de ser verificado várias horas depois, controlando o INR. Se ainda for demasiado elevado, deverá ser administrada outra dose de vitamina K. O tratamento adicional pode incluir medicamentos de coagulação do sangue, se necessário.

Para um dos NOAC: dabigatrano (pradaxa), também está disponível um antídoto. Chama-se idarucizumab (praxbind) e ficou clinicamente disponível em 2015. Uma dosagem deste antídoto é suficiente para neutralizar completamente o efeito da dabigatrano, sendo restaurada a coagulação normal do sangue. Para os outros NOAC, não existe nenhum antídoto clinicamente disponível, mas muito provavelmente ficará disponível no futuro próximo. Tal como acontece com os antagonistas da vitamina K, poderá ser administrado um produto sanguíneo para neutralizar os efeitos dos anticoagulantes destes agentes, se necessário.

 

Dispositivos para encerramento do apêndice auricular esquerdo (LAA)

A FIBRILHAÇÃO AURICULAR resulta numa atividade auricular caótica, ineficaz, com estase do fluxo sanguíneo. Pensa-se que esta estagnação do sangue favorece o desenvolvimento de coágulos, normalmente dentro de uma bolsa da aurícula esquerda semelhante a um dedo, chamada apêndice auricular esquerdo. Estes coágulos resultam em bloqueios de artérias vitais, estando, por exemplo, na origem de AVC. Como a maioria dos coágulos se forma no apêndice auricular esquerdo, pode proceder-se em casos selecionados à excisão ou encerramento do LAA para reduzir o risco de AVC embólico.

No caso de doentes que não podem tomar anticoagulantes orais devido ao risco de hemorragia, o médico pode ocluir o apêndice auricular esquerdo por via percutânea, através de uma punção da veia femoral na virilha. Um dispositivo semelhante a um tampão é inserido no apêndice no formato contraído, sendo expandido para ocluir totalmente a cavidade do apêndice auricular esquerdo e inclusive fechá-la. O procedimento é realizado sob sedação ou anestesia geral. Das primeiras semanas até aos 3 meses, é necessária uma combinação de medicamentos para impedir a formação de coágulos. Posteriormente, deverá passar-se a um único medicamento. Em estudos recentes foi demonstrado que este procedimento fornece proteção contra o AVC semelhante à da anticoagulação oral clássica (com antagonistas da vitamina K), embora possam ocorrer complicações imediatas após implantação do dispositivo de encerramento.

 

Controlo do ritmo versus controlo da frequência

Controlo do ritmo significa que o doente e o respetivo médico decidiram obter e manter um ritmo sinusal normal. Quando esta estratégia falha ou é impossível, a presença da FIBRILHAÇÃO AURICULAR é aceite ou inevitável, podendo ser importante baixar/controlar a frequência cardíaca. A isto chama-se controlo da frequência.

 

Fármacos utilizados para reduzir os episódios de FIBRILHAÇÃO AURICULAR (controlo do ritmo):

Os fármacos utilizados para reduzir ou suprimir episódios de FIBRILHAÇÃO AURICULAR são denominados “antiarrítmicos”.

Os fármacos antiarrítmicos utilizados com mais frequência são:

  • amiodarona
  • disopiramida
  • dronedarona
  • flecainida
  • propafenona
  • sotalol

 

Os fármacos antiarrítmicos modificam a atividade elétrica das células cardíacas. A geração e transmissão de sinais elétricos coordenam a atividade de bombeamento do músculo cardíaco. Tomar fármacos antiarrítmicos pode ajudar a reduzir as possibilidades de recorrência da FIBRILHAÇÃO AURICULAR, mas estes fármacos não garantem que não vai sofrer episódios de FIBRILHAÇÃO AURICULAR. Por vezes, pode ter de experimentar vários antiarrítmicos antes de encontrar um mais adequado para si e alguns dos fármacos antiarrítmicos não são adequados a todos os doentes. O seu médico irá decidir qual é o fármaco antiarrítmico adequado para si, consoante as outras condições médicas que tem. Por exemplo, se tiver uma doença cardíaca isquémica (estreitamento das artérias do coração) ou insuficiência cardíaca (fraco bombeamento do coração). Alguns fármacos antiarrítmicos, tal como a amiodarona, podem ter efeitos secundários graves, como tal o seu médico irá monitorizá-lo regularmente para assegurar que é seguro continuar a tomar esta medicação. Por motivos de segurança, pode ser necessário fazer uma pequena análise ao sangue ao seu braço para monitorizar o fármaco. O seu médico irá ajudá-lo a escolher o melhor fármaco antiarrítmico para si e irá debater consigo as vantagens e possíveis efeitos secundários em mais detalhe.

Fármacos utilizados para reduzir a frequência cardíaca (controlo da frequência):

Existem vários medicamentos tomados na forma de comprimidos, que podem ajudar a reduzir a frequência cardíaca em pessoas com FIBRILHAÇÃO AURICULAR. O seu médico irá escolher o mais indicado para si.

Os principais tipos de medicamento habitualmente utilizados para reduzir a frequência cardíaca são:

  • Digitálicos
  • Betabloqueadores (por exemplo: bisoprolol, metoprolol, atenolol)
  • Antagonistas dos canais de cálcio (por exemplo: diltiazem, verapamil)

Para muitos doentes com FIBRILHAÇÃO AURICULAR, basta um comprimido para reduzir a frequência cardíaca o suficiente, mas alguns doentes podem necessitar de tomar dois ou mais tipos de comprimido para conseguirem controlar a frequência cardíaca.

Os digitálicos, tal como a digoxina, são utilizados há mais de cem anos e podem reduzir até uma frequência cardíaca muito rápida. Estes medicamentos são muito eficazes, especialmente se não for fisicamente muito ativo. No entanto, podem ser menos eficazes durante a atividade física. Este é um dos motivos por que outra classe de medicamentos, denominada betabloqueadores (por exemplo, bisoprolol ou metoprolol) é frequentemente utilizada em pessoas mais novas e/ou em doentes mais ativos. Os betabloqueadores não são adequados para todas as pessoas, especialmente se tiver asma. Nesse caso, os bloqueadores dos canais de cálcio, tal como o diltiazem ou o verapamil, podem ser a sua melhor opção. O seu médico deverá levar em consideração todas as suas circunstâncias individuais para decidir qual é a melhor opção de medicamento(s) para ajudar a controlar a sua frequência cardíaca.

 

Cardioversão elétrica

Se tiver um episódio de FIBRILHAÇÃO AURICULAR sintomática, que não responde a fármacos antiarrítmicos, o seu médico pode sugerir que se submeta a uma cardioversão elétrica. Este procedimento visa restaurar o seu ritmo cardíaco de volta ao ritmo normal. Este procedimento é normalmente planeado com antecedência e consiste em aplicar um choque elétrico controlado no peito que visa o coração. O impulso elétrico é forte o suficiente para parar por instantes quaisquer sinais elétricos gerados pelo coração e permitir que o pacemaker natural do coração, “o nódulo sinusal”, recupere o controlo do seu ritmo cardíaco.

A cardioversão elétrica é realizada no hospital, utilizando uma máquina chamada desfibrilhador, que, no essencial, é uma bateria potente computorizada. O choque elétrico é aplicado através de dois grandes adesivos ou pás (elétrodos) fixados ao peito. Normalmente, os adesivos são colocados no lado direito e esquerdo do peito ou na parte dianteira e traseira do tronco.

article1Electrical Cardioversion on a patient

Antes da cardioversão, ser-lhe-á administrada uma injeção de um anestésico de curta duração para não estar consciente, pois este procedimento é desconfortável. Deste modo, não irá sentir nada durante a cardioversão. Se o primeiro choque elétrico não conseguir restaurar o ritmo normal do seu coração, então será tentado um outro utilizando uma descarga ligeiramente mais forte. Não deverá sentir qualquer dor durante a cardioversão, mas muitas vezes as zonas sob os elétrodos podem ficar um pouco doridas durante um dia ou dois após o procedimento.

Deve estar ciente de que mesmo depois de uma cardioversão bem-sucedida (na qual o seu ritmo cardíaco voltou ao ritmo sinusal normal) é possível que a FIBRILHAÇÃO AURICULAR volte. Isto acontece a cerca de metade dos doentes durante o primeiro ano após a cardioversão. A possibilidade de recorrência da FIBRILHAÇÃO AURICULAR depende de muitos fatores, mas é mais provável se tiver outros problemas cardíacos (incluindo tensão arterial elevada) e se tiver FIBRILHAÇÃO AURICULAR há mais de 1 ano.

É também possível realizar uma cardioversão recorrendo a determinados medicamentos que são utilizados para controlar o ritmo. Esta é denominada cardioversão farmacológica, pois é utilizada medicação em vez do choque elétrico para tentar restaurar o ritmo cardíaco normal. Este procedimento também é realizado no hospital. O medicamento será administrado por perfusão através de uma veia e o seu ritmo e frequência cardíacos serão monitorizados de forma contínua.

Antes de realizar uma cardioversão, quer seja uma elétrica ou farmacológica, terá de tomar um anticoagulante, durante pelo menos as 3 semanas prévias. Se assim não for, será necessário um exame ecocardiográfico transesofágico para excluir a existência de coágulos no coração antes da cardioversão. Também será necessário continuar a tomar o medicamento anticoagulante durante pelo menos 4 semanas após cardioversão para reduzir o risco de AVC. Consoante o seu risco global de AVC, o médico poderá indicar-lhe que continue a tomar o anticoagulante para o resto da sua vida.

 

Ablação com cateter da fibrilhação auricular

Terapia de ablação (isolamento das veias pulmonares, IVP)

As veias pulmonares são os vasos que ligam os pulmões à aurícula esquerda que permitem que sangue enriquecido com oxigénio volte ao coração. O músculo auricular estende-se por uma curta distância desde o corpo da aurícula esquerda até às veias pulmonares. Nas pessoas com FIBRILHAÇÃO AURICULAR, verificou-se que estas extensões musculares exibem atividade elétrica muito rápida, que não é controlada pela atividade normal do coração. Estes impulsos elétricos anormais, como resultado de interações complexas, produzem atividade elétrica rápida (400-650 ciclos por minuto) e irregular e, consequentemente, contrações mecânicas ineficazes das aurículas.

A propagação da atividade elétrica anormal com origem nas veias pulmonares pode ser detida pela desativação/destruição do tecido auricular na junção das veias pulmonares com a aurícula esquerda, para que não possa conduzir sinais elétricos. A desativação das células na junção das veias pulmonares pode ser conseguida aquecendo as células (acima de 55 graus, mas abaixo dos 80 - 90 graus centígrados) ou arrefecendo as células (abaixo de -50 graus centígrados), ou mesmo através de cirurgia cardíaca.

Através de pequenas punções na virilha, o médico introduz vários cateteres na veia femoral e desloca-os sob radioscopia até à aurícula direita. Para alcançar a aurícula esquerda, o médico utiliza uma agulha comprida para efetuar uma punção na parede que separa a aurícula direita e a esquerda (septo interauricular) e, em seguida, introduz o(s) cateter(es) na aurícula esquerda. Durante este procedimento, o médico introduz dois cateteres na aurícula esquerda: um para registar os sinais das veias pulmonares visadas, o outro para administrar a corrente de radiofrequência nos pontos pretendidos e para registar os respetivos sinais elétricos. O procedimento é guiado por uma reconstrução tridimensional da anatomia e da forma das veias pulmonares e da aurícula esquerda.

 

Ablação com cateter por radiofrequência

A técnica mais comum utiliza uma corrente alterna de alta frequência (cerca de 550 KHz) administrada através dum cateter flexível com um elétrodo metálico na ponta. A passagem da corrente aquece um pequeno volume de tecido e consegue temperaturas elevadas nessa localização que variam consoante a intensidade da corrente e o contacto tecidular. Cada volume pequeno de tecido inativado é uma lesão. Uma série de lesões contíguas que se estende por toda a espessura do tecido e forma um círculo nas junções das veias pulmonares do lado direito e esquerdo cria uma barreira elétrica que isola as veias pulmonares da aurícula esquerda sem danificar a integridade física dos tecidos.

O isolamento elétrico resultante é confirmado pelo desaparecimento estável dos sinais elétricos nas veias pulmonares e os cateteres são então removidos.

A isto chama-se o isolamento das veias pulmonares por ablação com cateter por radiofrequência.

article1Radio frequency catheter ablation

 

Ablação com balão de crioenergia

No isolamento das veias pulmonares com criobalão, introduz-se um balão desinsuflado especial na aurícula esquerda, sendo colocado na entrada das veias pulmonares e expandido com um gás refrigerante pressurizado produzindo temperaturas muito baixas, aderindo ao tecido e congelando-o em contacto circunferencial com o perímetro do balão. Após congelação suficiente, o balão é aquecido, desinsuflado e deslocado para outra veia pulmonar, sendo a ablação repetida. Quando o balão entra em contacto com a junção das veias pulmonares com a aurícula esquerda, a criolesão circular produz isolamento da veia pulmonar.

Independentemente da técnica utilizada, o isolamento da veia pulmonar é realizado com o doente anestesiado e sob ventilação assistida ou com sedação profunda e respiração espontânea. Após o procedimento, é aplicada uma ligadura de compressão na virilha, recebendo o doente alta habitualmente no dia seguinte. Após a alta, pode retomar uma vida normal após os dias iniciais. Regra geral, precisa de continuar a tomar os fármacos anticoagulantes durante pelo menos 8 semanas após a intervenção. Muitas vezes, são prescritos medicamentos adicionais para controlar a frequência e o ritmo cardíacos.

article1Cryoballoon

 

Complicações do isolamento da veia pulmonar

A complicação mais comum é a hemorragia ou hematoma no local da punção na virilha, com uma acumulação resultante de sangue parcialmente coagulado sob a pele ou em maior profundidade nos tecidos, produzindo um alto, um nódulo ou uma contusão, sendo frequentemente sensível ou doloroso. A compressão manual e o repouso na cama normalmente podem parar a hemorragia e a acumulação desaparece progressivamente ao longo das semanas seguintes. Se no local da punção, aparecer subitamente um alto ou inflamar ou ficar doloroso, o doente deve consultar o seu médico.

Um coágulo pode soltar-se da aurícula esquerda e migrar para quaisquer vasos sanguíneos arteriais sistémicos, por exemplo, para o cérebro, os olhos, os membros, os rins, etc., bloqueando o fornecimento do oxigénio e causando lesões isquémicas nos tecidos. Isto pode resultar num AVC ou em danos para os olhos, membros ou rins. Regra geral, a utilização correta dos fármacos anticoagulantes durante as 3-4 semanas anteriores ao procedimento, bem como durante a intervenção, e após a ablação reduz muito a sua incidência (para menos de 1%). Também se recorre à realização de ecocardiograma transesofágico antes do procedimento para garantir que não há nenhum coágulo. Em determinados casos, um coágulo pode ser dissolvido por medicamentos para o efeito ou a artéria bloqueada pode ser reaberta fazendo passar um balão através do coágulo, restaurando assim o fornecimento de sangue.

Podem ocorrer hemorragias internas, normalmente na membrana à volta do coração (pericárdio) em cerca de 1-2% dos casos. Isto pode fazer com que o coração seja incapaz de fornecer sangue suficiente ao organismo, resultando numa queda importante da tensão arterial. Na maioria dos casos, pode ser utilizada uma agulha para realizar uma punção debaixo do esterno para introduzir um cateter na membrana à volta do coração e drenar o sangue. Esta intervenção é habitualmente suficiente para restaurar a circulação normal, caso contrário pode ser necessária uma cirurgia.

Podem ocorrer danos no tecido circundante no exterior do coração, incluindo nervos e o esófago. O nervo do diafragma (um músculo importante para a respiração) pode ficar danificado, embora isso seja mais frequente na ablação por criobalão, resultando em dispneia e cansaço, mas normalmente as lesões desaparecem de forma espontânea no espaço de algumas semanas ou meses. Os nervos do estômago também podem ser danificados, geralmente resultando em distensão e repleção abdominais, mas estes sintomas desaparecem igualmente no espaço de algumas semanas.

O esófago, que está localizado mesmo por trás da parede posterior da aurícula esquerda, pode ser danificado por lesão de calor ou frio proveniente do coração. Embora seja raro (cerca de 1 caso em 4000), pode originar um orifício com comunicação entre o coração e o esófago (fistula), com possibilidade de infeção grave, AVC e até morte. Reduzir a agressão térmica administrada perto do esófago é a forma mais eficaz de evitar esta rara complicação.

O excesso de cicatrizes na entrada das veias pulmonares pode resultar num estreitamento suficiente para obstruir o fluxo sanguíneo. Regra geral, isto produz tosse, dispneia e por vezes sangue na expetoração nas semanas após o procedimento. Este estreitamento pode ser tratado com balões ou stents, sendo possível evitá-lo desviando as lesões de isolamento da entrada das veias pulmonares na direção da aurícula esquerda.

 

Acompanhamento e resultados após a ablação da fibrilhação auricular

Alguns dias depois do doente ter alta do hospital, uma avaliação básica realizada por um médico de medicina geral para verificar sinais vitais (como a pulsação e tensão arterial) e os locais de punção na virilha é recomendada. Se o doente não tiver queixas, incentiva-se a retoma progressiva das atividades do dia a dia. No entanto, devem ser evitados esforços intensos e viagens longas durante algumas semanas. Posteriormente, um eletrofisiologista ou um cardiologista realizará uma avaliação cardíaca, incluindo uma avaliação da situação cardíaca no que se refere a arritmias, e revisão dos medicamentos ou prescrições, mantendo o doente em seguimento semestral nos primeiros 12-24 meses.

Em caso de palpitações recorrentes e comprovação através de ECG de fibrilhação auricular ou outras arritmias, poderão ser prescritos fármacos antiarrítmicos adicionais ou anteriormente eficazes. Além disso, pode ser recomendada a repetição de um procedimento de ablação, normalmente não antes de terem decorrido 12 semanas, para permitir a estabilização dos efeitos do procedimento. Normalmente nos doentes com fibrilhação auricular paroxística, os resultados bem-sucedidos são observados em cerca de 70% após o procedimento inicial, havendo necessidade dum procedimento adicional em 20 a 30% dos doentes para aumentar a taxa de sucesso até 85%. O sucesso duma única ablação é mais baixo em doentes com fibrilhação auricular persistente e persistente de longa-duração.

 

Implantação de pacemaker combinada com nodo atrioventricular e ablação da junção auriculoventricular

Em vez de tentar restaurar o ritmo cardíaco regular normal suprimindo a FIBRILHAÇÃO AURICULAR, o médico pode regularizar e controlar a frequência cardíaca bloqueando a transmissão dos impulsos elétricos rápidos das aurículas para os ventrículos. É claro que para evitar uma frequência cardíaca demasiado baixa, implanta-se um pacemaker, utilizando depois um cateter com energia de radiofrequência, que cauteriza o feixe elétrico que liga as aurículas aos ventrículos, impedindo que a fibrilhação rápida afete a frequência cardíaca. Trata-se dum procedimento simples, rápido, que não exige equipamento complexo. A frequência cardíaca é regularizada pelo pacemaker, não obstante a continuidade da FIBRILHAÇÃO AURICULAR. No entanto, o pulso passa a ser rítmico, as palpitações são suprimidas e a qualidade de vida é melhorada, podendo também melhorar o desempenho cardíaco. Este tipo de intervenção é, não obstante, irreversível, não sendo possível remover nem dispensar a utilização do pacemaker.